conversas com livreiros e & etc

Dia 11 passado estive na Feira do Livro no Porto, ao norte de Portugal. De um modo geral, feiras de livro não passam de uma sequência de banquinhas com títulos enfileirados, distribuídos de modo minimamente chamativo, oscilando entre o supra-especializado e o lugar-comum do que o mercado editorial tem para oferecer no momento, o que me decepciona quase sempre.

No entanto, há algo que feiras promovem de modo indireto que é deveras impagável. São as conversas com os amantes dos livros. Eles não tratam os livros burocraticamente como um atendente de uma grande rede de livrarias, que atende clientes em sequência com o cansaço das horas extras. Eles não dissecam livros como os acadêmicos, que buscam circunscrever sua interpretação ao máximo para tentarem ter razão em seu ponto de vista.

Os livreiros amam os livros com fetiche e respeito. Eles conhecem bem a diferença entre as edições de uma mesma obra, se teve alguma alteração entre um volume e outro, porque eles leram com cuidado. Livreiros dialogam com autores já há muito tempo mortos e amaldiçoam preços de capa e, se sentirem que vais honrar e tratar bem daquele exemplar, arranjam descontos assombrosos para ti. Eles não são meros distribuidores de produtos: eles têm tesão sobre o que falam e uma propriedade erótica de quem folheou muita página e pode falar. Editores independentes e tipógrafos costumam ser assim também.

Conversar com livreiros costuma ser sempre algo inspirador, independente de venderem livros para ti ou não. É completamente diferente de encomendar livros pela Internet, de pedir uma recomendação a um professor conhecedor da área, ou ganhar um vale-presente na Cultura ou na FNAC.

Esta grande feira de duas semanas atrás estava bem representada por bancas de todo o país e apresentou-me a Livraria Utopia, um espaço lado-B do Porto que reúne títulos como os produzidos pela Letra Livre e de outras editoras com forte tendência anarquista não doutrinária (com o que simpatizo fortemente).

Foi quando perguntei o que o Sr. Livreiro (cujo nome esqueci) o que ele tinha sobre editoras artesanais. O olho dele brilhou. A paixão pelo que faz veio à tona e os próximos minutos vieram com ricos detalhes sobre a história das pequenas editoras em Portugal. Foi quando ele me mostrou o livro “&etc: uma editora no subterrâneo”, sobre a Vitor Silva Tavares, uma das grandes mentes do impresso marginal em Lisboa no e pós o período salazarista. Pra mim, foi um grande achado! Como se fosse pouco, 41 anos depois da sua primeira publicação a &etc ainda existe, e anualmente lança novos títulos, contrariando a lógica das pequenas editoras serem efêmeras. Foi amor imediato!

“&etc: uma editora no subterrâneo”
(Ed. Letra Livre)

Nos dias que se seguiram, devorei o livro. Apesar de ter tido chance de ir visitar a editora lisboeta ainda naquela semana, não fui. Ainda assim, gostei tanto do que li que escrevi um resumo acadêmico prum colóquio para falar sobre minha pesquisa e sobre a &etc mês que vem em Coimbra (aguardando resposta).

Acho que para quem não gosta de holofotes, virar notícia nunca é uma boa coisa. Melhor é manter o anonimato e reservar-se ao direito civil ao esquecimento. Mas eis que hoje lemos o nome de Vitor Silva Tavares numa manchete. Coisa boa não podia ser:

OBITUÁRIO

Morreu Vitor Silva Tavares, editor de várias gerações de poetas

Curioso é que, em qualquer lugar do mundo, são assim que as coisas se organizam: as notas obituárias de quem é mesmo relevante para uma geração fora do circuito comercial, ocupa um lugar minúsculo no jornal, tão pequeno como o espaço que deram em vida à sua importância. O que eles não sabem é o que muito bem disse minha amiga Rita Apoena, quando tinha o Jornal das Pequenas Coisas, que eu adorava ler:

“Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem.”

Acho que vale para vidas também e para as obras que ultrapassam a nossa existência. Este mundo de afeto, ternura e dor em que vivemos é invisível para o grande público e não interessa ser noticiado. Mas o tempo e a memória fazem jus ao que não quiseram publicar e, por isso mesmo em tempos anteriores, exigiram que uma editora fosse criada para lançar o que achavam importante, coisas que aparentemente não tinham espaço.

Fica então este post como uma muito singela homenagem à resistência que a &etc por tão largo tempo teve e a este homem que inspira, inclusive, livreiros e editores já muito inspirados!

pra chegar à Pasárgada é preciso uma única mala

para meu Avô

A seleção natural não se aplica aos nossos apegos emocionais. A prova disso é o quanto somos capazes de encontrar significado para os objetos com que convivemos.

Quando há um limite inegociável, nossa ânsia impõe-se para fazer com que as coisas caibam em um único lugar. No caso de uma mala, são míseros 33 kg – semelhante peso que pode estar acumulado e distribuído entre culotes, braços, coxas e barriga de uma pessoa sedentária qualquer.

Colocar as meias dentro dos sapatos, enrolar camisetas ou colocá-las com os braços abertos, fazer caber em potinhos de 100 ml líquidos essenciais são os tópicos básicos. Há vários outros que, no entanto, não estão disponíveis em tutoriais no YouTube.

Pros amantes do papel, reduzir é uma prova de fogo. Você os ama e eles são como uma parte do seu corpo, mas a verdade é que livros pesam pra caramba. Têm aqueles gostosos de reler, outros dois com valor sentimental, aqueles quatro fundamentais pra sua pesquisa, outros dois que você comprou por impulso, além de uns três que você trouxe pensando que teria tempo pra finalmente começá-los – mas a verdade é que você só mudou de lugar: infelizmente, você segue não conseguindo ler tudo o que gostaria.

Há aquela roupa que você não usava quase nunca e nos últimos tempos nem sentiu sua falta. Desculpas pras benditas ocasiões especiais que achamos que existem, mas nunca nos convencem quando chegam. A estas somaram-se outras peças (que também escolhemos pelo mesmo motivo) e agora elas já não estão sozinhas: demonstram uma porção importante da nossa capacidade de procrastinar. O destino está fora da sua prioridade de embarque.

É um desapego doloroso isso de viver. Achamos que algo acontece quando mudamos de casa, de Estado, de País. Achamos que lá, na nossa Pasárgada, iremos exercer nossa dupla personalidade, praticar esportes que jamais pensaríamos, ser o que no fundo sempre quisemos, mas que não tivemos coragem para ser.

Pro balanço final, é preciso ignorar e simplesmente desistir de algumas partes importantes pra conseguir carregar as escolhas todas sozinha, com as próprias forças. Isso porque, entre tudo o que você tem, ali está o que você elegeu como essencial para viver. Até poderia caber mais uma foto impressa no meio de algumas páginas, talvez um tricô feito com carinho que não coube, ou um sapato que deveria estar aqui, mas que ficaram. No fim, sou apenas eu com o apego dos objetos que acho que me ligam a pessoas/lugares/lembranças.

No entanto, o essencial não pesa. Sem sombra de dúvidas, confundimos o que é necessário com o que precisamos pra meramente existirmos.

Ao juntar tudo o que é importante, você constata que sua vida não se reduz a esta mala. Isso é apenas o suficiente para um breve embarcar. Sem sombra de dúvidas o que é importante pra você não cabe ali. Não há bagagem capaz de guardar em um mesmo lugar o que lhe causa amor. E isso não se descarta e não há quem precise sofrer dilemas quando já não vivemos mais para gerenciar essas nossas tolices. Ninguém precisa guardar em caixas, vender pela internet ou levar para doação. Esta leveza sequer causa problemas no dia do nosso check-out. Talvez pese, no máximo, aquelas sutis 21 gramas.

uma tese para uma criança

Hoje encontrei uma reportagem que tem relação com o meu objeto de estudo, o que afinal me trouxe para Portugal. O link está aqui. Partilho com os leitores interessados em história do livro, novos autores, mercado editorial, escritores brasileiros, pequenas editoras, livros artesanais, tipografia e coisas do tipo.

No mês passado foi a primeira vez que falei sobre meu projeto de tese. Tive oportunidade de expor minhas ideias em Salamanca e aqui em Coimbra. Numa das ocasiões, rolou uma conversa sobre o quanto é difícil resumir nosso objeto de estudo (mesmo para quem está imerso no mundo acadêmico também), seja porque ainda não conhecemos bem o nosso objeto e ele ainda está se delineando, seja porque ele é muito complexo ou nós enrolados. Ouvi de um professor uma frase sobre isso que achei memorável:

“Você saberá o que estuda e conhecerá sua tese quando conseguir explicar a uma criança de cinco anos sobre seu assunto sem entediá-la”

Segundo este professor, há quem passe a vida inteira fugindo deste enfrentamento, unindo fragmentos de conteúdos que esperamos encontrar algum sentido para a escrita da tese ou para uma publicação posterior. Enfim, passa a ser uma obsessão particular que nos acompanha de tal maneira que não conseguimos olhar para fora, tampouco explicar para alguém nossas motivações de pesquisa – que podem perfeitamente misturar-se com as nossas questões pessoais de busca pelo sentido da vida. A vida acadêmica e nossos objetos de estudo servindo de psicanálise desde o primeiro olhar.

Meu esforço está sempre em não me tornar hermética (talvez seja meu eco didático que funciona como um sensor interno). Agora, tenho este novo desafio: tentar explicar pessoalmente às crianças da minha vida o que me fez faltar às últimas festas de aniversário delas em um futuro breve. E, claro, vai ter que ser uma explicação bem convincente!

aos amigos em constante travessia

Avisaram antes que eu viesse:

“Tu não vais virar mineira”,

mas não teve jeito, a mudança aconteceu.

Não me sinto mais gaúcha:

virei brasileira.

rua da Estrela, Coimbra (PT)

19/07/2015 rua da Estrela, Coimbra (PT)