no ano em que não vi a primavera

No ano em que não vi a primavera, estive por algumas horas em Cabo Verde, primeiro país formado de ilhas que vi. Neste dia, estive num voo em que eu era a única pessoa branca, enquanto Cesária Évora cantava um sentimento que eu conheceria bem. Neste ano, eu saberia que a palavra “sôdade”, que minha avó sentida diz ao telefone quando conversamos, está perfeitamente correta em Crioulo.

No ano em que não vi a primavera, cheguei num outro continente sozinha, com uma mochila, uma mala e sem conhecer ninguém (apesar de conhecer Pessoa), mas sabia em que cidade eu ia morar, diferente de outra menina que encontrei no avião, absolutamente perdida. Voltei a falar inglês. Comi comida italiana, irlandesa, alemã, espanhola, marroquina e francesa cozinhada por nativos. Em três semanas, conheci três Andreas: duas mulheres e um homem. Fiz amigos portugueses, chineses e brasileiros de partes do meu país em que nunca estive, mas adoro a ideia de estar.

No ano em que não vi a primavera, digo adeus a um por um dos novos amigos que fiz nesta cidade nova, porém antiga, como num dia outro amigo me dirá e noutra vez, num verdadeiro sono, ouvirei de alguém sem saber que era adeus aquele tchau. Neste ano, me reconciliei com situações do meu passado que eu nem sabia que ainda me atrapalhavam e descobri várias outras que me rondam e assombram.

No ano em que não vi a primavera, fui aprovada num doutorado sem mestrado por ter um currículo relevante e exemplar, mas que tinha sido já duas vezes negado (sem justificativa) no Brasil. Me demiti de dois empregos estáveis e desmontei a casa que tinha acabado de montar. Mudei de estado civil e passei, depois de casada, a namorar meu marido à distância.

No ano em que não vi a primavera, eu vi dois verões, sobrevoei o norte da África e vi o Oceano de cima.

Não ter visto a primavera precisava compensar.

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porque a Europa não gosta de feriados

É melhor saber: a Europa é um mito que muitos europeus discordam e desconfiam, mas que, graças à baixa-estima e ao complexo de vira-lata de outros continentes, é difundido e reafirmado.

Largamente comprada e vendida, há uma aura no imaginário de o que é a Europa. “Lá as coisas funcionam melhor”, “as pessoas são mais civilizadas” , “lá sim tem História” e frases assim eu coletei antes de partir para meu doutorado no exterior. A isso chamo vontade de ser colonizado novamente. Estou me prontificando a esclarecer este equívoco latino-americano com observações de temporária residente portuguesa que sou, pois a visão de turista encerrou ainda em minhas primeiras semanas aqui ─ e isso faz toda a diferença.

Hoje é o Dia de Portugal. Uhu, feriado! Um dos raros que encontrei no calendário no início de janeiro. Eles eram poucos não porque seriam em finais de semana, mas porque quatro deles foram abolidos dois anos atrás. 10 de junho foi um dos poucos sobreviventes ao corte de feriados de 2013, que durará cinco anos. O objetivo é gerar mais renda em quatro dias a mais do ano. Grande luta sindical para serem pagos os dias a mais de trabalho, claro, com poucas conquistas. Portugal, definitivamente, é um mau patrão. Isso é a crise. O Euro está aí para provar isso. É a crise no cotidiano da população. E isso turista não vê.

O dia de hoje foi eleito no Estado Novo (vulgo, ditadura salazarista) para homenagear o nacionalismo. Forjou-se, então, o dia da morte de Camões como referência para a data, justificando o nome: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Tudo bem, toda a sociedade precisa de marcos fundacionais e, ao longo do tempo, governos ditatoriais demonstraram imensa habilidade em criar mitos. A situação crítica está no final do nome: Dia das Comunidades Portuguesas. Até 1974, 10 de junho era o Dia da Raça. A raça superior que difundiu a língua portuguesa pelo mundo a fora. A lusofonia a serviço de uma língua comum, hegemônica, consensual. Qualquer linguista pode acabar com este purismo fantasioso em menos de dois minutos de argumentação.

A Europa não é tão simples como uma visita de poucos dias pode dar a entender. Ela não é plana como gostaria um guia de viagens. O olhar colonialista se inverte e se amplia ao encontrar adeptos que propagam a síndrome do quintal (europeu) ao lado ser mais verde e seguro, rebaixando o que temos em casa. Este amor todo não é recíproco.

Só quem espera meses por um feriado sabe como é.

um dos vários tipos de agressão que existem

̶  Não é todo dia que eu tô afim.

Tu sabes que eu tenho muitas coisas pra fazer durante o dia. Ainda por cima tenho mais as tarefas da casa, que são exaustivas. E tenho que estar bem pra quando te encontrar. Nem sempre dá pra conciliar tudo. Sério, na boa, hoje não vai rolar…

Já disse que não, por favor, não insiste! Quem tu pensas que eu sou? Tira a mão, porra! Não é porque ontem dava pra tocar aí que hoje também dá. Que saco, tu não me respeita! A gente já falou sobre isso outro dia. Não tem nada a ver com não gostar de ti ou não sentir tesão ou não ter vontade de transar. Eu tenho e muita, só que hoje eu não tô afim. Por que é tão difícil entender isso? Eu não sei com que tipo de gente tu convivias antes de me conhecer e também não sei que tipo de gente tu eras, mas comigo não funciona assim.

Só porque eu tenho um caralho não significa que eu sempre queira trepar.

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PS: Mulheres também agridem sexualmente.

Genealogia materna

I.

Assim que nasceu a criança, perguntaram rapidamente à mãe, ainda um tanto anestesiada pela situação toda, se ela queria ver a criança. A mãe não entendeu a pergunta e pediu que repetissem. A enfermeira, irmã no hospital, tentou acalmar a nova mãezinha e explicou que no caso dela, o hospital entenderia se ela quisesse encaminhar a criança para adoção sem sequer vê-la ou saber seu sexo.

A mãe encolerizou-se e gritou: QUERO VER MEU FILHO! É uma filha, responderam. Gritou ainda que não entendeu qual seria “o seu caso” e que queria ver a filha AGORA. Ser mãe solteira numa cidade ainda com zona rural não seria nada fácil, mas ela estava disposta. Já me foderam demais, pensou.

Demorava demais a espera. Azulada, enfim, a criança chegou. A mãe só queria saber se era perfeita. Era, era sim. Era linda também. Vestiria a roupinha branca e enrolaria no xalezinho amarelo que tricotou durante a gravidez. Queria que a filha aprendesse a nadar desde cedo. Não teria medo de subir em árvore. Queria que gostasse de ler e que fosse sua companheira. Nunca mais ela se sentiria sozinha, pensou. E não seria medrosa.

Pegou-a no colo. Aquele colo que poucos bebês pegara até então. Não queria que nada de ruim nunca acontecesse praquele bichinho. Naquele minuto, tudo valera a pena. Todos os dias socada em casa para que a vizinhança não visse a barriga crescendo, chorando de vergonha e de humilhação. Era uma Priscila, não um Leonardo, como há pouco não sabia. Priscila por causa do Elvis.

O pai não quis conhecer. Desistiu de casar às vésperas. Vestido de noiva, enxoval, tudo certo. Afirmou que não estava pronto para nada daquilo. Como se a mãe estivesse.

II.

Comunicaram à avó que a criança estava sentada, com o cordão umbilical enrolado ao pescoço como se tivesse brincado de tecer uma forca por falta de ocupação dentro da barriga da mãe. Era um prenúncio de que o tempo livre para aquela criança era um sinal de perigo. Disseram a ela que a filha devia esperar mais algumas horas, talvez a situação pudesse ser revertida ao natural. Enérgica, a avó respondeu que a filha já havia sofrido demais durante a gestação e que pagava, mesmo que caro, para que fizessem cesariana de imediato. Mas de imediato não podia ser, responderam: os médicos estavam na pausa do café das 9h. Teria que esperar. Daria tempo de contar as economias dos últimos meses das costuras que fizera e que levara para o hospital (o mesmo que catorze anos depois receberia a neta atropelada em uma sexta-feira 13) para o caso de alguma emergência. Esta era a emergência.

Em meia hora, costurariam a barriga da filha com eficácia e, a seguir, a avó seria a primeira a pegar a neta no colo, por toda a posteridade motivo de grande orgulho. Seria depois a primeira a fotografá-la, com a câmera comprada exclusivamente para este evento. Em 1986, câmeras no sul do Brasil em famílias de operários eram artigo de luxo.

Iniciava ali uma linhagem de mulheres, filhas de filhas únicas. Pelo menos é mulher, pensou a avó. Mais uma pro nosso lado.

sobre a prisão voluntária que é esperar por um príncipe encantado

Tem a ver com a liberdade sexual que nós, como mulheres, nos damos. Acreditar em fórmulas afetivas de sucesso atrapalha nossas iniciativas de intimidade e coloca a atração física a serviço do moralismo, enquanto que estas não são variantes assim tão alinháveis.

Tem a ver com o grau de exigência que temos com o outro e o que entendemos que precisamos ter antes para nos relacionarmos com alguém: um emprego melhor, uma casa, um carro, um corpo com peso a menos, um pouco de peito a mais… Alguém que possa me levar para praias paradisíacas e que me faça chegar suspirar constantemente.

Isso é esperar demais do outro e ignorar o lado não tão interessante que qualquer pessoa tem. Desejar que o outro nos ofereça uma performance completa exige que ele se conheça a tal ponto de poder me oferecer tal prazer. Isso um vibrador pode fazer. O outro lado é querer que ele seja um personagem, com um conjunto nobre e indiscutível de virtudes que se encaixam sob medida para minhas demandas. Isso é uma caricatura.

Querer que o outro nos trate como um tiete à uma celebridade é tão ingênuo quanto esquecer que celebridades só o são em poucas horas do dia. Nas outras todas, elas são como os demais mortais: ao final de uma jornada sentem cansaço, comem, vão ao banheiro, dormem e podem ter performances medíocres na cama.

Estamos esperando demais para começar a viver. Esperando para poder viver como se já não tivéssemos esta chance no presente. Poder valorizar as virtudes no outro, sentir uma vida crescendo dentro de si, transformando-se em outras formas de sentir o fato de estar viva. Esperando pelo olhar do outro para começar: preciso que ele me ache atraente para que eu possa começar a amar, para que inicie o meu interesse por alguém. Que, na verdade, inicie o meu amor-próprio com o grau de humildade proporcional às relações que são verdadeiramente humanas. Não haverá quem possa suprir este intimidador equívoco de exigência. Tampouco de espera. É querer o ideal masculino antítese da virgindade feminina que, por muito, se arrastou como dogma.

Ainda estamos esperando iniciativa de homens ou de mulheres que tenham um pulso firme para “chegarem junto”. Para mim, isso nada mais é do que uma nova roupagem pro machismo.

Isso é pedir que a mão do outro mostre o prazer que trago em mim. É achar que as experiências anteriores não tiveram valor e que só se encontrarmos alguém especial para fincarmos raízes, então construiremos algo que “dará certo”.

Mas não necessariamente isso funcione assim, e pelo simples fato de que as relações se desfazem assim como um dia elas iniciaram. Elas se refazem e passam a ser uma outra coisa e isso também pode ser bom. Não é preciso levar consigo mágoas ou criar barreiras. Nunca fomos destruídos o suficiente que não possamos arriscar uma outra vez, afinal não somos nem tão fortes como achávamos que éramos, mas não somos tão fracos assim.

Não tentar outra vez é uma forma de covardia e toda a covardia é rasa e leviana. Não é digna da força que toda a mulher tem consigo e que muitas ainda desconhecem (ou negam) ter. É esperar que o marido me faça mulher e que a maternidade me realize. Mas meu sexo é meu genital e meu gênero é outra coisa. E o lugar em que coloco minha sexualidade e a preferência que dou à sublimação das minhas necessidades físicas em detrimento de discursos que aceito como bons para mim, são outras.

Esta lógica sufoca gerações: ela exige que o filho seja mais presente, que saia de casa mais cedo ou que prolongue sua estadia; que o neto realize o que o filho não fez e que seja motivo de alegria e orgulho. Isso cria pessoas intolerantes e, sobretudo, meninas vulneráveis a relações dominadoras, além de uma eterna insatisfação que pede para que o outro supere minhas frustrações, sendo que isso não é um problema dele.

Seria bom que pudéssemos abandonar o medo que fundou as lembranças matriciais femininas e que nos define como seres frágeis, passíveis de agressão e manipuláveis. Não digo com isso que devemos dominar o outro – muito pelo contrário. Isso não é um ajuste de contas raivoso. Devemos procurar na intimidade um lugar seguro para troca e confiança de um processo que se constrói no contato, não feito para usufruir de um resultado ou de um produto, usando o corpo e desprezando-o após um gozo ansioso.

Antigamente, nos impunham que carregássemos um peso que não era nosso. Muitas de nossas bisavós, avós, tias e mães também já o carregaram. Algumas ainda o carregam. No entanto, já ninguém nos pede isso. Está mais do que na hora de percebermos que suportá-lo ainda hoje nada mais é do que uma forma de autorrepressão, um desrespeito consigo e uma prisão voluntária.

Não é preciso pedir permissão para romper esta lógica, afinal ninguém teria autorização para dá-la. Não há compromisso maior do que ser coerente com a necessidade interna do que sentimos. Não há o que esperar e nem o que temer. Força não nos falta para recomeçar.