sobre a prisão voluntária que é esperar por um príncipe encantado

Tem a ver com a liberdade sexual que nós, como mulheres, nos damos. Acreditar em fórmulas afetivas de sucesso atrapalha nossas iniciativas de intimidade e coloca a atração física a serviço do moralismo, enquanto que estas não são variantes assim tão alinháveis.

Tem a ver com o grau de exigência que temos com o outro e o que entendemos que precisamos ter antes para nos relacionarmos com alguém: um emprego melhor, uma casa, um carro, um corpo com peso a menos, um pouco de peito a mais… Alguém que possa me levar para praias paradisíacas e que me faça chegar suspirar constantemente.

Isso é esperar demais do outro e ignorar o lado não tão interessante que qualquer pessoa tem. Desejar que o outro nos ofereça uma performance completa exige que ele se conheça a tal ponto de poder me oferecer tal prazer. Isso um vibrador pode fazer. O outro lado é querer que ele seja um personagem, com um conjunto nobre e indiscutível de virtudes que se encaixam sob medida para minhas demandas. Isso é uma caricatura.

Querer que o outro nos trate como um tiete à uma celebridade é tão ingênuo quanto esquecer que celebridades só o são em poucas horas do dia. Nas outras todas, elas são como os demais mortais: ao final de uma jornada sentem cansaço, comem, vão ao banheiro, dormem e podem ter performances medíocres na cama.

Estamos esperando demais para começar a viver. Esperando para poder viver como se já não tivéssemos esta chance no presente. Poder valorizar as virtudes no outro, sentir uma vida crescendo dentro de si, transformando-se em outras formas de sentir o fato de estar viva. Esperando pelo olhar do outro para começar: preciso que ele me ache atraente para que eu possa começar a amar, para que inicie o meu interesse por alguém. Que, na verdade, inicie o meu amor-próprio com o grau de humildade proporcional às relações que são verdadeiramente humanas. Não haverá quem possa suprir este intimidador equívoco de exigência. Tampouco de espera. É querer o ideal masculino antítese da virgindade feminina que, por muito, se arrastou como dogma.

Ainda estamos esperando iniciativa de homens ou de mulheres que tenham um pulso firme para “chegarem junto”. Para mim, isso nada mais é do que uma nova roupagem pro machismo.

Isso é pedir que a mão do outro mostre o prazer que trago em mim. É achar que as experiências anteriores não tiveram valor e que só se encontrarmos alguém especial para fincarmos raízes, então construiremos algo que “dará certo”.

Mas não necessariamente isso funcione assim, e pelo simples fato de que as relações se desfazem assim como um dia elas iniciaram. Elas se refazem e passam a ser uma outra coisa e isso também pode ser bom. Não é preciso levar consigo mágoas ou criar barreiras. Nunca fomos destruídos o suficiente que não possamos arriscar uma outra vez, afinal não somos nem tão fortes como achávamos que éramos, mas não somos tão fracos assim.

Não tentar outra vez é uma forma de covardia e toda a covardia é rasa e leviana. Não é digna da força que toda a mulher tem consigo e que muitas ainda desconhecem (ou negam) ter. É esperar que o marido me faça mulher e que a maternidade me realize. Mas meu sexo é meu genital e meu gênero é outra coisa. E o lugar em que coloco minha sexualidade e a preferência que dou à sublimação das minhas necessidades físicas em detrimento de discursos que aceito como bons para mim, são outras.

Esta lógica sufoca gerações: ela exige que o filho seja mais presente, que saia de casa mais cedo ou que prolongue sua estadia; que o neto realize o que o filho não fez e que seja motivo de alegria e orgulho. Isso cria pessoas intolerantes e, sobretudo, meninas vulneráveis a relações dominadoras, além de uma eterna insatisfação que pede para que o outro supere minhas frustrações, sendo que isso não é um problema dele.

Seria bom que pudéssemos abandonar o medo que fundou as lembranças matriciais femininas e que nos define como seres frágeis, passíveis de agressão e manipuláveis. Não digo com isso que devemos dominar o outro – muito pelo contrário. Isso não é um ajuste de contas raivoso. Devemos procurar na intimidade um lugar seguro para troca e confiança de um processo que se constrói no contato, não feito para usufruir de um resultado ou de um produto, usando o corpo e desprezando-o após um gozo ansioso.

Antigamente, nos impunham que carregássemos um peso que não era nosso. Muitas de nossas bisavós, avós, tias e mães também já o carregaram. Algumas ainda o carregam. No entanto, já ninguém nos pede isso. Está mais do que na hora de percebermos que suportá-lo ainda hoje nada mais é do que uma forma de autorrepressão, um desrespeito consigo e uma prisão voluntária.

Não é preciso pedir permissão para romper esta lógica, afinal ninguém teria autorização para dá-la. Não há compromisso maior do que ser coerente com a necessidade interna do que sentimos. Não há o que esperar e nem o que temer. Força não nos falta para recomeçar.

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