Genealogia materna

I.

Assim que nasceu a criança, perguntaram rapidamente à mãe, ainda um tanto anestesiada pela situação toda, se ela queria ver a criança. A mãe não entendeu a pergunta e pediu que repetissem. A enfermeira, irmã no hospital, tentou acalmar a nova mãezinha e explicou que no caso dela, o hospital entenderia se ela quisesse encaminhar a criança para adoção sem sequer vê-la ou saber seu sexo.

A mãe encolerizou-se e gritou: QUERO VER MEU FILHO! É uma filha, responderam. Gritou ainda que não entendeu qual seria “o seu caso” e que queria ver a filha AGORA. Ser mãe solteira numa cidade ainda com zona rural não seria nada fácil, mas ela estava disposta. Já me foderam demais, pensou.

Demorava demais a espera. Azulada, enfim, a criança chegou. A mãe só queria saber se era perfeita. Era, era sim. Era linda também. Vestiria a roupinha branca e enrolaria no xalezinho amarelo que tricotou durante a gravidez. Queria que a filha aprendesse a nadar desde cedo. Não teria medo de subir em árvore. Queria que gostasse de ler e que fosse sua companheira. Nunca mais ela se sentiria sozinha, pensou. E não seria medrosa.

Pegou-a no colo. Aquele colo que poucos bebês pegara até então. Não queria que nada de ruim nunca acontecesse praquele bichinho. Naquele minuto, tudo valera a pena. Todos os dias socada em casa para que a vizinhança não visse a barriga crescendo, chorando de vergonha e de humilhação. Era uma Priscila, não um Leonardo, como há pouco não sabia. Priscila por causa do Elvis.

O pai não quis conhecer. Desistiu de casar às vésperas. Vestido de noiva, enxoval, tudo certo. Afirmou que não estava pronto para nada daquilo. Como se a mãe estivesse.

II.

Comunicaram à avó que a criança estava sentada, com o cordão umbilical enrolado ao pescoço como se tivesse brincado de tecer uma forca por falta de ocupação dentro da barriga da mãe. Era um prenúncio de que o tempo livre para aquela criança era um sinal de perigo. Disseram a ela que a filha devia esperar mais algumas horas, talvez a situação pudesse ser revertida ao natural. Enérgica, a avó respondeu que a filha já havia sofrido demais durante a gestação e que pagava, mesmo que caro, para que fizessem cesariana de imediato. Mas de imediato não podia ser, responderam: os médicos estavam na pausa do café das 9h. Teria que esperar. Daria tempo de contar as economias dos últimos meses das costuras que fizera e que levara para o hospital (o mesmo que catorze anos depois receberia a neta atropelada em uma sexta-feira 13) para o caso de alguma emergência. Esta era a emergência.

Em meia hora, costurariam a barriga da filha com eficácia e, a seguir, a avó seria a primeira a pegar a neta no colo, por toda a posteridade motivo de grande orgulho. Seria depois a primeira a fotografá-la, com a câmera comprada exclusivamente para este evento. Em 1986, câmeras no sul do Brasil em famílias de operários eram artigo de luxo.

Iniciava ali uma linhagem de mulheres, filhas de filhas únicas. Pelo menos é mulher, pensou a avó. Mais uma pro nosso lado.

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