uma tese para uma criança

Hoje encontrei uma reportagem que tem relação com o meu objeto de estudo, o que afinal me trouxe para Portugal. O link está aqui. Partilho com os leitores interessados em história do livro, novos autores, mercado editorial, escritores brasileiros, pequenas editoras, livros artesanais, tipografia e coisas do tipo.

No mês passado foi a primeira vez que falei sobre meu projeto de tese. Tive oportunidade de expor minhas ideias em Salamanca e aqui em Coimbra. Numa das ocasiões, rolou uma conversa sobre o quanto é difícil resumir nosso objeto de estudo (mesmo para quem está imerso no mundo acadêmico também), seja porque ainda não conhecemos bem o nosso objeto e ele ainda está se delineando, seja porque ele é muito complexo ou nós enrolados. Ouvi de um professor uma frase sobre isso que achei memorável:

“Você saberá o que estuda e conhecerá sua tese quando conseguir explicar a uma criança de cinco anos sobre seu assunto sem entediá-la”

Segundo este professor, há quem passe a vida inteira fugindo deste enfrentamento, unindo fragmentos de conteúdos que esperamos encontrar algum sentido para a escrita da tese ou para uma publicação posterior. Enfim, passa a ser uma obsessão particular que nos acompanha de tal maneira que não conseguimos olhar para fora, tampouco explicar para alguém nossas motivações de pesquisa – que podem perfeitamente misturar-se com as nossas questões pessoais de busca pelo sentido da vida. A vida acadêmica e nossos objetos de estudo servindo de psicanálise desde o primeiro olhar.

Meu esforço está sempre em não me tornar hermética (talvez seja meu eco didático que funciona como um sensor interno). Agora, tenho este novo desafio: tentar explicar pessoalmente às crianças da minha vida o que me fez faltar às últimas festas de aniversário delas em um futuro breve. E, claro, vai ter que ser uma explicação bem convincente!

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aos amigos em constante travessia

Avisaram antes que eu viesse:

“Tu não vais virar mineira”,

mas não teve jeito, a mudança aconteceu.

Não me sinto mais gaúcha:

virei brasileira.

rua da Estrela, Coimbra (PT)

19/07/2015 rua da Estrela, Coimbra (PT)

quando passei a frequentar espaços masculinizados

Não sei precisar ao certo quando isso começou, pois tenho a impressão de que sempre fui assim, mas acho que foi quando terminei a escola, não passei no vestibular e comecei a trabalhar.

Meu primeiro emprego de carteira assinada foi uma tarefa tipicamente feminina: auxiliar administrativo. Aos 18 anos, qualquer blusinha com um jeans me deixava pronta para um dia de trabalho e eu nunca fiz questão de adotar salto alto. Talvez apenas nos primeiros dias, porque me lembro de ter ido escolher sapatos porque ia começar a trabalhar. Na primeira semana desisti dos saltos porque eram pouco práticos: eu precisava percorrer 4 km em cima deles, subir escadas, por vezes fazer serviço de banco, correio e caminhar por ruas esburacadas. Eles atrapalhavam a minha velocidade e, por mais que dessem um bom destaque para meu patrimônio traseiro, eu estava lá para trabalhar, não para exibir meu patrimônio (pelo menos eu achava isso), então eu não ia usar aquela merda que me fodia as costas e os joelhos no final do dia.

Acho que começou aí.

Depois de uns meses, me entediei em ser obrigada a estar lá por 8h, em 5 dias da semana, como se eu fosse uma propriedade durante aquele tempo. Achava irritante o nada para fazer que me prendia às vezes só para cumprir hora. E foi nesta época que eu aprendi que, para o chefe, se você fica 5 minutos a mais não há problema nenhum, mas se você chega 5 minutos depois, será com certeza um grande problema.

Decidi começar a arriscar. Prestei concursos públicos para nível médio e entendi que as coisas não seriam tão rápidas como eu gostaria. Quis voltar a estudar, mas não sabia o quê. Eu intuía que estudar me permitiria estar em contato com o ambiente acadêmico, o que me daria mais oportunidades e melhores condições de trabalho, mesmo que eu precisasse investir algum tempo nisso. Na minha cabeça, seria uma boa troca.

Foi assim que fiz a prova para Escola Técnica da UFRGS, num domingo de manhã de maio, num frio da porra em que quase fiquei dormindo algumas horas a mais e perdi a prova (mas para isso servem também os namorados – mesmo os exs – para nos incentivar a não desistir). Sem a menor esperança, fiz a prova: português, matemática e redação. Aconteceu o que eu já sabia: tomei bomba em matemática. Mesmo assim, para minha surpresa, fui muito bem nas outras duas e, um mês depois, meu nome estava na lista de aprovados. Uau, passei na federal!

Comecei o curso técnico no turno inverso ao trabalho, precisando me deslocar para capital e voltar à noite, bem tarde, por dois ônibus não bem frequentados, digamos assim. Acho que foi nesta época que comecei a sentir insegurança na rua, especialmente ao percorrer a pé os 600m que separavam o ônibus da minha casa. Ao mesmo tempo em que comecei a sentir medo, também precisei tomar coragem, pois se eu não cruzasse aquele caminho, estaria mais suscetível a ser notícia policial no dia seguinte. Por vezes, lembro do pavor de correr pela rua e chegar em casa trancando a porta ainda em desespero, como que aliviada e aterrorizada. E, no outro dia, tinha vestir alguma blusinha e um jeans e ir trabalhar como se nada tivesse acontecido na véspera, atender ao telefone com uma voz simpática e serena e cumprir minhas horas do dia. Lembro que ingenuamente cogitei que se as mulheres se “enfeiassem” e fossem menos atrativas, talvez os índices de estupro fossem menores – coisa que, hoje sei, infelizmente, não é tão simples – e que acho que incentivou algum ganho de sobrepeso.

Depois disso, quis fazer um estágio e trocar de trabalho. Me demiti e fui trabalhar na distribuidora da Petrobrás, ao lado da refinaria, por um ano, num espaço quase que exclusivamente masculino, em que eu era uma das 3 mulheres que trabalhavam entre mais de 80 homens entre tanques de petróleo, gasolina e querosene de aviação, medindo temperaturas de tanques num espaço de escritório.

Daí para fazer vestibular outra vez, morar sozinha, passar no vestibular, optar não assumir os concursos para conciliar com a faculdade e mudar-me várias vezes para poder estudar não foram decisões difíceis. Tampouco reparar que na vida acadêmica poucas eram as mulheres professoras universitárias. Apesar de que a esmagadora maioria de minhas colegas de graduação era mulher e todas as professoras de português em escola que conheci (incluindo amigas de minha mãe, que eram professoras) eram sempre mulheres, eu achava curioso que na área de Literatura Brasileira na faculdade NENHUMA fosse mulher. Ouvi dizer que tinha uma, na verdade, mas que era tão pouco saliente que mesmo em 7 anos lá, nunca consegui notá-la.

Enfim, eis que ontem, em uma mesa de bar com mais cinco caras (meu marido e seus amigos da Nigéria, Equador, Lituânia), todos estrangeiros fazendo pós-graduação, eu reparei nisso: eu era a única mulher daquela mesa. E, curiosamente, várias amigas me procuram quando precisam de norte para decidir se vão continuar com o namorado ou não, se devem arriscar num novo trabalho ou num namoro à distância, se devem ter um filho neste momento ou fazer mestrado, e coisas assim. Também amigos que curtem caras me relatam coisas ULTRA machistas sobre suas relações e eu me pergunto: por que este pessoal escolhe a mim para perguntar essas coisas?

Acho que é porque eu, mesmo sem saber, passei a frequentar espaços masculinizados, inclusive por simplesmente querer escrever.

primeiro de julho

Há alguns dias do ano em que algumas músicas fazem mais sentido.

Passei os finais de tarde da minha adolescência caminhando na pracinha perto de casa, depois da escola e do trabalho na vidraçaria da família, ouvindo música num walkman amarelo de pilha que teria algum fim obscuro.

Aos quinze anos, ganhei de aniversário um discman, que talvez tenha sido um dos meus presentes mais importantes daquela época. Altamente revolucionário, permitia escolher quais CDs eu levaria para ouvir ao longo do caminho até o litoral, facilitando o isolamento de todo o contexto familiar que estar dentro de um carro, sendo adolescente, envolvia. A única tarefa árdua era gerenciar quantas pilhas seriam necessárias para uma viagem de ida e volta até a praia.

Comecei ouvir Cássia Eller depois de “Com você meu mundo ficaria completo” (1999) e, com muito custo, consegui o “Acústico MTV” (2001), que seria seu último registro musical. E foi neste discman que eu me emocionei com muitos versos deste disco.

No auge da minha simpatia pelo rock brasileiro, por volta das 18h no calor de um fim de dezembro no sul da América do Sul, ao caminhar na praça com meu walkman amarelo, estarrecida soube pela rádio que minha nova musa falecera. Lembro de ter ouvido a notícia e parado de caminhar de súbito para ter certeza do que tinha ouvido.

E eis que há quase quinze anos ouço “Primeiro de julho” com o mesmo carinho e impacto de antes. Fica de presente para os estimados leitores esta mídia virtual.

E para os que ainda não conhecem, o novo documentário que saiu sobre ela: