O corpo de uma mulher grávida

O corpo de uma mulher grávida é um território de disputa, uma grande contradição, pois, se de um lado, uma mulher é capaz por si só de gerar todas as condições para que outra vida nasça de dentro de si, por outro precisa lidar com dezenas de prescrições que a fazem sentir insegura por conseguir fazer isso por conta própria.

O corpo de uma mulher grávida é um conflito de perspectivas, pois, se buscamos relatos de outras mulheres que deram à luz antes de nós, isso não significa que elas tenham mais ou menos legitimidade no que estão dizendo: elas estão apenas oferecendo o seu ponto de vista – muitas vezes tão idealizado, infantilizado e masculinizado que sequer tocam na experiência individual que você está vivendo.

O corpo de uma mulher grávida tem prazo limitado. É uma das poucas garantias que se tem que vá expirar. Portanto é também uma contagem regressiva para deixar de ser apenas filha e namorada para ser mãe de alguém que desconhecemos por completo, apesar de ser filho de nossas entranhas. É um íntimo desconhecido. Graças a isso, muitas vezes o corpo de uma mulher grávida é um delírio entre tempos, um encontro de ansiedades entre a criança (ou mesmo o feto) que fomos, a pessoa presente com a barriga que cresce a cada dois dias um pouco mais e a mãe que queremos ser. E nos forçamos a aprender ao máximo tudo o que uma mãe pode vir a precisar no nível da informação, sem muitas vezes abrirmos espaço para a confiança de sermos a mãe que seremos pelo simples fato de estarmos em relação com aquela criança – e não com outra – e que nosso convívio nos ensinará o necessário, combinando com o mesmo instinto de sobrevivência que faz com que protejamos a barriga antes de qualquer outra parte do corpo quando sentimos movimentos bruscos durante a gravidez.

O corpo de uma mulher grávida é um retrocesso ao impor a uma mulher que ela seja quase que exclusivamente fêmea, sobretudo mamífera, depois de toda igualdade de direitos que já conquistamos nas últimas décadas, pedindo que ela se ocupe de roupinhas, cuidados médicos e retorne a um espaço doméstico que socialmente já abandonamos há muito tempo. Estar grávida é, portanto, um confronto ideológico, arquetípico e social.

O corpo de uma mulher grávida é a síntese da espécie humana, pois tudo que já nasceu, viveu e morreu veio do corpo de uma mulher grávida, logo ele concentra a mitocôndria da minha mãe e da minha avó dentro de mim e remete à memória de toda minha ancestralidade com uma força que, antes de engravidar, eu nunca tinha me sensibilizado.

O corpo de uma mulher grávida é uma contradição de discursos, de gente que se acha no direito de encostar em você sendo que, semanas antes, podia olhar com reprovação para a forma física da sua barriga, já que o corpo de uma mulher grávida também é uma desconstrução de um ideal estético que censura formas arredondadas quando não se está grávida, mas que aprova com o olhar quando se está evidentemente grávida ou que espia de esguelho hipocritamente quando só desconfia e não tem coragem de perguntar se na sua barriga tem mesmo um bebê ou não.

O corpo de uma mulher grávida é um gatilho para a comoção coletiva que, na maioria das vezes, nos trata como se fôssemos a representação de algo divino na terra, portanto causando as reações mais dóceis e gentis.

O corpo de uma mulher grávida é também um espaço de constrangimento coletivo, pois escancara a certeza de que aquela mulher é sexualmente ativa, o que, em nossa cultura, ainda é polêmico. Assim, uma mulher grávida é sobretudo uma mulher aprovada socialmente se ela está envolvida em um relacionamento afetivo que lhe oferece certa moralidade; caso contrário, esse corpo passa a ser um espaço de vergonha e censura. Coisas assim fazem com que o parto seja um tabu à parte, já que a mulher tende a ser vista como um ser passivo que precisa de intervenção para dar conta de um processo natural e orgânico que não é uma doença. Por isso, o corpo de uma mulher grávida pode ser um lugar solitário ou uma sobreposição de solidões.

O corpo de uma mulher grávida é um desafio interpretativo entre o metafísico e o biológico, pois se há quem diga que é obra de deus, outros podem considerar que foi mera análise combinatória – e quase sempre a mulher é apenas um ser passivo que “sofreu” essas ações todas sem reagir.

O corpo de uma mulher grávida é um espaço de cobrança, de listas de cagação de regra do que se pode fazer ou evitar – o que, na maioria das vezes, gera mais ansiedade do que ajuda.

O corpo de uma mulher grávida é a certeza de que os sexos têm mais é que se unir conforme quiserem e serem felizes ao dar vazão às suas pulsões mais escondidas, afinal, desde a nossa infância, o corpo se transforma a favor da nossa maturidade sexualidade.

O corpo de uma mulher grávida é o maior dos deadlines, uma síntese entre alegria e pavor por estar viva, já que há sempre o risco de que, para que se sobreponha a vida, se enfrente a morte – metafórica ou não – entre quem somos e quem seremos depois de parir.

O corpo de uma mulher grávida é uma sacanagem de gênero, que concentra nesta mulher as dores todas enquanto que o homem, no máximo e na melhor das hipóteses, será solidário àquela situação.

O corpo de uma mulher grávida é um espaço de socialização, pois ele não passa desapercebido: há sempre algum comentário ou um olhar observador que emite sua opinião de o quão bem ou o quão mal, estranha, inchada, com pouco ou muito peito ou peso ou varizes ou parecida ou diferente de outra que está aquela mulher grávida – sendo alguns desses comentários emitidos por mulheres que negam o difícil processo que estar grávida pressupõe, seja por desconhecimento ou por resistência ao admitir a própria dor.

O corpo de uma mulher grávida é a crise entre sentir-se bem em um dia e, quando se habitua ao novo tamanho de corpo, sente-se disforme com a novidade do agora, sendo uma síntese grosseira da impermanência.

O corpo de uma mulher grávida é extasiamento por dois seres humanos coexistirem em um mesmo lugar no espaço, desafiando as leis da física e nossa própria criatividade, demonstrando a fragilidade e a força do que nosso corpo é capaz apesar de sempre desconfiarmos que não damos conta.

O corpo de uma mulher grávida é o instinto pulsante, é a prova cabal da falta de controle que temos sobre o desenvolver da vida, mas, ao mesmo tempo, é a certeza de que recai sobre nós uma responsabilidade desgraçada de escolher melhor nossos parceiros e de que precisamos garantir mais direitos de proteção e de civilidade para que cada mulher possa escolher se quer viver essa condição ou não, sendo seu corpo de grávida ou não grávida seu maior direito inalienável.

O corpo de uma mulher grávida é, acima de tudo, um espaço de escolha, sendo a gravidez literal ou imaginária, nunca uma imposição social, sendo absolutamente livre do compromisso de ter filhos, pois não é isso que torna ou não uma mulher em uma mulher.

Enfim, se um útero é do tamanho de um punho, o corpo de uma mulher grávida é do tamanho do universo, infinitamente maior do que os limites que costumamos ver, um espaço de liberdade criativa absoluta, limitado apenas pelo que acreditamos ser nossa realidade – ainda que muitas vezes ela não seja propriamente real.

*Para Fred, que fez esse filho comigo, e para nosso filho que, daqui a 12 semanas, conhecerá a luz do mundo após passar pela minha buceta, quando finalmente conheceremos seu sexo.
Sugestão para ouvir depois de ler: “Cabimento” – Arnando Antunes
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O dedo Queer que Sócrates não viu

Há anos o Rio Grande do Sul tem dado amostras do seu retrocesso cultural; apesar disso, nem em uma realidade distópica seria possível imaginar uma atitude tão drástica quanto o fechamento de uma exposição em pleno século XXI. Sócrates já havia cantado a pedra: é preciso questionar o todo, não só a parte, para que o pensamento seja uma reflexão complexa, significativa e verdadeira. No entanto, um provérbio chinês já advertia: enquanto um sábio aponta as estrelas, o idiota só vê um dedo. Esta é a sensação que tenho ao acompanhar a repercussão da Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira em Porto Alegre. Que existam idiotas que só enxergam dedos não há surpresa alguma: este é o princípio da diversidade, portanto é comum que existam. O que choca, na verdade, é a repercussão da ignorância.

Há meses tem sido difícil ir trabalhar – e sei que não estou sozinha nesta sensação. Profissionais da educação que, assim como eu, dividem sua prática docente com a produção intelectual de uma tese acadêmica já vivem conflitos suficientemente grandes devido às precárias condições de trabalho e às hostis resoluções de parcelamento de salário. Apesar disso, um mal nunca vem sozinho: talvez o único reduto seguro de questionamento agora foi oficialmente atacado. Ou melhor: agora foi politicamente atacado. Sabe-se o quanto os artistas resistem e dedicam-se aos seus ofícios muito mais por teimosia do que qualquer outro tipo retorno material. E isso não é à toa: os incentivos fiscais estão reduzidos às Artes com “A” maiúsculo, eleitas pelos museus como dignas de prestígio e que, ainda sim, também sofrem com os tempos das vacas magras (que, na verdade, nunca foram propriamente gordas). O Santander Cultural, por sua vez, estava dando um passo necessário à frente, trazendo à tona discussões sobre os limites sexuais de gênero, uma pauta cultural historicamente excluída do mainstream. Todavia, demonstra a fragilidade de seu posicionamento ao acatar as críticas dos idiotas que só veem um dedo, ignorando todo o processo que esse questionamento conquistou ao longo do tempo.

Se há algo de louvável nesta discussão sobre a Queermuseu é romper as barreiras acadêmicas por discutir parâmetros do que é pode ser arte ou não. Logo, a natureza essencial do questionamento socrático está preservada! Mas se esta discussão é interminável e tão antiga quanto o número de páginas que todos os teóricos escreveram a respeito ao longo dos séculos, por favor, não a reduzam a noções levianas como “gosto”, “custo” ou “legislação”. Isso equivale a afirmar que mimese seja apenas uma linha que diferencia o literal do figurado.

Não era preciso que duvidássemos de mais uma instituição no meio de tantas outras já corrompidas. Deixem-nos ainda ter esperança que House of Cards é somente uma série americana e que não nos atinge tanto assim…

Priscila Monteiro, doutoranda em Materialidades da Literatura na Universidade de Coimbra (Portugal), professora na rede pública e privada em Porto Alegre (Brasil)

conversas com livreiros e & etc

Dia 11 passado estive na Feira do Livro no Porto, ao norte de Portugal. De um modo geral, feiras de livro não passam de uma sequência de banquinhas com títulos enfileirados, distribuídos de modo minimamente chamativo, oscilando entre o supra-especializado e o lugar-comum do que o mercado editorial tem para oferecer no momento, o que me decepciona quase sempre.

No entanto, há algo que feiras promovem de modo indireto que é deveras impagável. São as conversas com os amantes dos livros. Eles não tratam os livros burocraticamente como um atendente de uma grande rede de livrarias, que atende clientes em sequência com o cansaço das horas extras. Eles não dissecam livros como os acadêmicos, que buscam circunscrever sua interpretação ao máximo para tentarem ter razão em seu ponto de vista.

Os livreiros amam os livros com fetiche e respeito. Eles conhecem bem a diferença entre as edições de uma mesma obra, se teve alguma alteração entre um volume e outro, porque eles leram com cuidado. Livreiros dialogam com autores já há muito tempo mortos e amaldiçoam preços de capa e, se sentirem que vais honrar e tratar bem daquele exemplar, arranjam descontos assombrosos para ti. Eles não são meros distribuidores de produtos: eles têm tesão sobre o que falam e uma propriedade erótica de quem folheou muita página e pode falar. Editores independentes e tipógrafos costumam ser assim também.

Conversar com livreiros costuma ser sempre algo inspirador, independente de venderem livros para ti ou não. É completamente diferente de encomendar livros pela Internet, de pedir uma recomendação a um professor conhecedor da área, ou ganhar um vale-presente na Cultura ou na FNAC.

Esta grande feira de duas semanas atrás estava bem representada por bancas de todo o país e apresentou-me a Livraria Utopia, um espaço lado-B do Porto que reúne títulos como os produzidos pela Letra Livre e de outras editoras com forte tendência anarquista não doutrinária (com o que simpatizo fortemente).

Foi quando perguntei o que o Sr. Livreiro (cujo nome esqueci) o que ele tinha sobre editoras artesanais. O olho dele brilhou. A paixão pelo que faz veio à tona e os próximos minutos vieram com ricos detalhes sobre a história das pequenas editoras em Portugal. Foi quando ele me mostrou o livro “&etc: uma editora no subterrâneo”, sobre a Vitor Silva Tavares, uma das grandes mentes do impresso marginal em Lisboa no e pós o período salazarista. Pra mim, foi um grande achado! Como se fosse pouco, 41 anos depois da sua primeira publicação a &etc ainda existe, e anualmente lança novos títulos, contrariando a lógica das pequenas editoras serem efêmeras. Foi amor imediato!

“&etc: uma editora no subterrâneo”
(Ed. Letra Livre)

Nos dias que se seguiram, devorei o livro. Apesar de ter tido chance de ir visitar a editora lisboeta ainda naquela semana, não fui. Ainda assim, gostei tanto do que li que escrevi um resumo acadêmico prum colóquio para falar sobre minha pesquisa e sobre a &etc mês que vem em Coimbra (aguardando resposta).

Acho que para quem não gosta de holofotes, virar notícia nunca é uma boa coisa. Melhor é manter o anonimato e reservar-se ao direito civil ao esquecimento. Mas eis que hoje lemos o nome de Vitor Silva Tavares numa manchete. Coisa boa não podia ser:

OBITUÁRIO

Morreu Vitor Silva Tavares, editor de várias gerações de poetas

Curioso é que, em qualquer lugar do mundo, são assim que as coisas se organizam: as notas obituárias de quem é mesmo relevante para uma geração fora do circuito comercial, ocupa um lugar minúsculo no jornal, tão pequeno como o espaço que deram em vida à sua importância. O que eles não sabem é o que muito bem disse minha amiga Rita Apoena, quando tinha o Jornal das Pequenas Coisas, que eu adorava ler:

“Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem.”

Acho que vale para vidas também e para as obras que ultrapassam a nossa existência. Este mundo de afeto, ternura e dor em que vivemos é invisível para o grande público e não interessa ser noticiado. Mas o tempo e a memória fazem jus ao que não quiseram publicar e, por isso mesmo em tempos anteriores, exigiram que uma editora fosse criada para lançar o que achavam importante, coisas que aparentemente não tinham espaço.

Fica então este post como uma muito singela homenagem à resistência que a &etc por tão largo tempo teve e a este homem que inspira, inclusive, livreiros e editores já muito inspirados!

pra chegar à Pasárgada é preciso uma única mala

para meu Avô

A seleção natural não se aplica aos nossos apegos emocionais. A prova disso é o quanto somos capazes de encontrar significado para os objetos com que convivemos.

Quando há um limite inegociável, nossa ânsia impõe-se para fazer com que as coisas caibam em um único lugar. No caso de uma mala, são míseros 33 kg – semelhante peso que pode estar acumulado e distribuído entre culotes, braços, coxas e barriga de uma pessoa sedentária qualquer.

Colocar as meias dentro dos sapatos, enrolar camisetas ou colocá-las com os braços abertos, fazer caber em potinhos de 100 ml líquidos essenciais são os tópicos básicos. Há vários outros que, no entanto, não estão disponíveis em tutoriais no YouTube.

Pros amantes do papel, reduzir é uma prova de fogo. Você os ama e eles são como uma parte do seu corpo, mas a verdade é que livros pesam pra caramba. Têm aqueles gostosos de reler, outros dois com valor sentimental, aqueles quatro fundamentais pra sua pesquisa, outros dois que você comprou por impulso, além de uns três que você trouxe pensando que teria tempo pra finalmente começá-los – mas a verdade é que você só mudou de lugar: infelizmente, você segue não conseguindo ler tudo o que gostaria.

Há aquela roupa que você não usava quase nunca e nos últimos tempos nem sentiu sua falta. Desculpas pras benditas ocasiões especiais que achamos que existem, mas nunca nos convencem quando chegam. A estas somaram-se outras peças (que também escolhemos pelo mesmo motivo) e agora elas já não estão sozinhas: demonstram uma porção importante da nossa capacidade de procrastinar. O destino está fora da sua prioridade de embarque.

É um desapego doloroso isso de viver. Achamos que algo acontece quando mudamos de casa, de Estado, de País. Achamos que lá, na nossa Pasárgada, iremos exercer nossa dupla personalidade, praticar esportes que jamais pensaríamos, ser o que no fundo sempre quisemos, mas que não tivemos coragem para ser.

Pro balanço final, é preciso ignorar e simplesmente desistir de algumas partes importantes pra conseguir carregar as escolhas todas sozinha, com as próprias forças. Isso porque, entre tudo o que você tem, ali está o que você elegeu como essencial para viver. Até poderia caber mais uma foto impressa no meio de algumas páginas, talvez um tricô feito com carinho que não coube, ou um sapato que deveria estar aqui, mas que ficaram. No fim, sou apenas eu com o apego dos objetos que acho que me ligam a pessoas/lugares/lembranças.

No entanto, o essencial não pesa. Sem sombra de dúvidas, confundimos o que é necessário com o que precisamos pra meramente existirmos.

Ao juntar tudo o que é importante, você constata que sua vida não se reduz a esta mala. Isso é apenas o suficiente para um breve embarcar. Sem sombra de dúvidas o que é importante pra você não cabe ali. Não há bagagem capaz de guardar em um mesmo lugar o que lhe causa amor. E isso não se descarta e não há quem precise sofrer dilemas quando já não vivemos mais para gerenciar essas nossas tolices. Ninguém precisa guardar em caixas, vender pela internet ou levar para doação. Esta leveza sequer causa problemas no dia do nosso check-out. Talvez pese, no máximo, aquelas sutis 21 gramas.

uma tese para uma criança

Hoje encontrei uma reportagem que tem relação com o meu objeto de estudo, o que afinal me trouxe para Portugal. O link está aqui. Partilho com os leitores interessados em história do livro, novos autores, mercado editorial, escritores brasileiros, pequenas editoras, livros artesanais, tipografia e coisas do tipo.

No mês passado foi a primeira vez que falei sobre meu projeto de tese. Tive oportunidade de expor minhas ideias em Salamanca e aqui em Coimbra. Numa das ocasiões, rolou uma conversa sobre o quanto é difícil resumir nosso objeto de estudo (mesmo para quem está imerso no mundo acadêmico também), seja porque ainda não conhecemos bem o nosso objeto e ele ainda está se delineando, seja porque ele é muito complexo ou nós enrolados. Ouvi de um professor uma frase sobre isso que achei memorável:

“Você saberá o que estuda e conhecerá sua tese quando conseguir explicar a uma criança de cinco anos sobre seu assunto sem entediá-la”

Segundo este professor, há quem passe a vida inteira fugindo deste enfrentamento, unindo fragmentos de conteúdos que esperamos encontrar algum sentido para a escrita da tese ou para uma publicação posterior. Enfim, passa a ser uma obsessão particular que nos acompanha de tal maneira que não conseguimos olhar para fora, tampouco explicar para alguém nossas motivações de pesquisa – que podem perfeitamente misturar-se com as nossas questões pessoais de busca pelo sentido da vida. A vida acadêmica e nossos objetos de estudo servindo de psicanálise desde o primeiro olhar.

Meu esforço está sempre em não me tornar hermética (talvez seja meu eco didático que funciona como um sensor interno). Agora, tenho este novo desafio: tentar explicar pessoalmente às crianças da minha vida o que me fez faltar às últimas festas de aniversário delas em um futuro breve. E, claro, vai ter que ser uma explicação bem convincente!