aos amigos em constante travessia

Avisaram antes que eu viesse:

“Tu não vais virar mineira”,

mas não teve jeito, a mudança aconteceu.

Não me sinto mais gaúcha:

virei brasileira.

rua da Estrela, Coimbra (PT)

19/07/2015 rua da Estrela, Coimbra (PT)

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quando passei a frequentar espaços masculinizados

Não sei precisar ao certo quando isso começou, pois tenho a impressão de que sempre fui assim, mas acho que foi quando terminei a escola, não passei no vestibular e comecei a trabalhar.

Meu primeiro emprego de carteira assinada foi uma tarefa tipicamente feminina: auxiliar administrativo. Aos 18 anos, qualquer blusinha com um jeans me deixava pronta para um dia de trabalho e eu nunca fiz questão de adotar salto alto. Talvez apenas nos primeiros dias, porque me lembro de ter ido escolher sapatos porque ia começar a trabalhar. Na primeira semana desisti dos saltos porque eram pouco práticos: eu precisava percorrer 4 km em cima deles, subir escadas, por vezes fazer serviço de banco, correio e caminhar por ruas esburacadas. Eles atrapalhavam a minha velocidade e, por mais que dessem um bom destaque para meu patrimônio traseiro, eu estava lá para trabalhar, não para exibir meu patrimônio (pelo menos eu achava isso), então eu não ia usar aquela merda que me fodia as costas e os joelhos no final do dia.

Acho que começou aí.

Depois de uns meses, me entediei em ser obrigada a estar lá por 8h, em 5 dias da semana, como se eu fosse uma propriedade durante aquele tempo. Achava irritante o nada para fazer que me prendia às vezes só para cumprir hora. E foi nesta época que eu aprendi que, para o chefe, se você fica 5 minutos a mais não há problema nenhum, mas se você chega 5 minutos depois, será com certeza um grande problema.

Decidi começar a arriscar. Prestei concursos públicos para nível médio e entendi que as coisas não seriam tão rápidas como eu gostaria. Quis voltar a estudar, mas não sabia o quê. Eu intuía que estudar me permitiria estar em contato com o ambiente acadêmico, o que me daria mais oportunidades e melhores condições de trabalho, mesmo que eu precisasse investir algum tempo nisso. Na minha cabeça, seria uma boa troca.

Foi assim que fiz a prova para Escola Técnica da UFRGS, num domingo de manhã de maio, num frio da porra em que quase fiquei dormindo algumas horas a mais e perdi a prova (mas para isso servem também os namorados – mesmo os exs – para nos incentivar a não desistir). Sem a menor esperança, fiz a prova: português, matemática e redação. Aconteceu o que eu já sabia: tomei bomba em matemática. Mesmo assim, para minha surpresa, fui muito bem nas outras duas e, um mês depois, meu nome estava na lista de aprovados. Uau, passei na federal!

Comecei o curso técnico no turno inverso ao trabalho, precisando me deslocar para capital e voltar à noite, bem tarde, por dois ônibus não bem frequentados, digamos assim. Acho que foi nesta época que comecei a sentir insegurança na rua, especialmente ao percorrer a pé os 600m que separavam o ônibus da minha casa. Ao mesmo tempo em que comecei a sentir medo, também precisei tomar coragem, pois se eu não cruzasse aquele caminho, estaria mais suscetível a ser notícia policial no dia seguinte. Por vezes, lembro do pavor de correr pela rua e chegar em casa trancando a porta ainda em desespero, como que aliviada e aterrorizada. E, no outro dia, tinha vestir alguma blusinha e um jeans e ir trabalhar como se nada tivesse acontecido na véspera, atender ao telefone com uma voz simpática e serena e cumprir minhas horas do dia. Lembro que ingenuamente cogitei que se as mulheres se “enfeiassem” e fossem menos atrativas, talvez os índices de estupro fossem menores – coisa que, hoje sei, infelizmente, não é tão simples – e que acho que incentivou algum ganho de sobrepeso.

Depois disso, quis fazer um estágio e trocar de trabalho. Me demiti e fui trabalhar na distribuidora da Petrobrás, ao lado da refinaria, por um ano, num espaço quase que exclusivamente masculino, em que eu era uma das 3 mulheres que trabalhavam entre mais de 80 homens entre tanques de petróleo, gasolina e querosene de aviação, medindo temperaturas de tanques num espaço de escritório.

Daí para fazer vestibular outra vez, morar sozinha, passar no vestibular, optar não assumir os concursos para conciliar com a faculdade e mudar-me várias vezes para poder estudar não foram decisões difíceis. Tampouco reparar que na vida acadêmica poucas eram as mulheres professoras universitárias. Apesar de que a esmagadora maioria de minhas colegas de graduação era mulher e todas as professoras de português em escola que conheci (incluindo amigas de minha mãe, que eram professoras) eram sempre mulheres, eu achava curioso que na área de Literatura Brasileira na faculdade NENHUMA fosse mulher. Ouvi dizer que tinha uma, na verdade, mas que era tão pouco saliente que mesmo em 7 anos lá, nunca consegui notá-la.

Enfim, eis que ontem, em uma mesa de bar com mais cinco caras (meu marido e seus amigos da Nigéria, Equador, Lituânia), todos estrangeiros fazendo pós-graduação, eu reparei nisso: eu era a única mulher daquela mesa. E, curiosamente, várias amigas me procuram quando precisam de norte para decidir se vão continuar com o namorado ou não, se devem arriscar num novo trabalho ou num namoro à distância, se devem ter um filho neste momento ou fazer mestrado, e coisas assim. Também amigos que curtem caras me relatam coisas ULTRA machistas sobre suas relações e eu me pergunto: por que este pessoal escolhe a mim para perguntar essas coisas?

Acho que é porque eu, mesmo sem saber, passei a frequentar espaços masculinizados, inclusive por simplesmente querer escrever.

primeiro de julho

Há alguns dias do ano em que algumas músicas fazem mais sentido.

Passei os finais de tarde da minha adolescência caminhando na pracinha perto de casa, depois da escola e do trabalho na vidraçaria da família, ouvindo música num walkman amarelo de pilha que teria algum fim obscuro.

Aos quinze anos, ganhei de aniversário um discman, que talvez tenha sido um dos meus presentes mais importantes daquela época. Altamente revolucionário, permitia escolher quais CDs eu levaria para ouvir ao longo do caminho até o litoral, facilitando o isolamento de todo o contexto familiar que estar dentro de um carro, sendo adolescente, envolvia. A única tarefa árdua era gerenciar quantas pilhas seriam necessárias para uma viagem de ida e volta até a praia.

Comecei ouvir Cássia Eller depois de “Com você meu mundo ficaria completo” (1999) e, com muito custo, consegui o “Acústico MTV” (2001), que seria seu último registro musical. E foi neste discman que eu me emocionei com muitos versos deste disco.

No auge da minha simpatia pelo rock brasileiro, por volta das 18h no calor de um fim de dezembro no sul da América do Sul, ao caminhar na praça com meu walkman amarelo, estarrecida soube pela rádio que minha nova musa falecera. Lembro de ter ouvido a notícia e parado de caminhar de súbito para ter certeza do que tinha ouvido.

E eis que há quase quinze anos ouço “Primeiro de julho” com o mesmo carinho e impacto de antes. Fica de presente para os estimados leitores esta mídia virtual.

E para os que ainda não conhecem, o novo documentário que saiu sobre ela:

no ano em que não vi a primavera

No ano em que não vi a primavera, estive por algumas horas em Cabo Verde, primeiro país formado de ilhas que vi. Neste dia, estive num voo em que eu era a única pessoa branca, enquanto Cesária Évora cantava um sentimento que eu conheceria bem. Neste ano, eu saberia que a palavra “sôdade”, que minha avó sentida diz ao telefone quando conversamos, está perfeitamente correta em Crioulo.

No ano em que não vi a primavera, cheguei num outro continente sozinha, com uma mochila, uma mala e sem conhecer ninguém (apesar de conhecer Pessoa), mas sabia em que cidade eu ia morar, diferente de outra menina que encontrei no avião, absolutamente perdida. Voltei a falar inglês. Comi comida italiana, irlandesa, alemã, espanhola, marroquina e francesa cozinhada por nativos. Em três semanas, conheci três Andreas: duas mulheres e um homem. Fiz amigos portugueses, chineses e brasileiros de partes do meu país em que nunca estive, mas adoro a ideia de estar.

No ano em que não vi a primavera, digo adeus a um por um dos novos amigos que fiz nesta cidade nova, porém antiga, como num dia outro amigo me dirá e noutra vez, num verdadeiro sono, ouvirei de alguém sem saber que era adeus aquele tchau. Neste ano, me reconciliei com situações do meu passado que eu nem sabia que ainda me atrapalhavam e descobri várias outras que me rondam e assombram.

No ano em que não vi a primavera, fui aprovada num doutorado sem mestrado por ter um currículo relevante e exemplar, mas que tinha sido já duas vezes negado (sem justificativa) no Brasil. Me demiti de dois empregos estáveis e desmontei a casa que tinha acabado de montar. Mudei de estado civil e passei, depois de casada, a namorar meu marido à distância.

No ano em que não vi a primavera, eu vi dois verões, sobrevoei o norte da África e vi o Oceano de cima.

Não ter visto a primavera precisava compensar.

porque a Europa não gosta de feriados

É melhor saber: a Europa é um mito que muitos europeus discordam e desconfiam, mas que, graças à baixa-estima e ao complexo de vira-lata de outros continentes, é difundido e reafirmado.

Largamente comprada e vendida, há uma aura no imaginário de o que é a Europa. “Lá as coisas funcionam melhor”, “as pessoas são mais civilizadas” , “lá sim tem História” e frases assim eu coletei antes de partir para meu doutorado no exterior. A isso chamo vontade de ser colonizado novamente. Estou me prontificando a esclarecer este equívoco latino-americano com observações de temporária residente portuguesa que sou, pois a visão de turista encerrou ainda em minhas primeiras semanas aqui ─ e isso faz toda a diferença.

Hoje é o Dia de Portugal. Uhu, feriado! Um dos raros que encontrei no calendário no início de janeiro. Eles eram poucos não porque seriam em finais de semana, mas porque quatro deles foram abolidos dois anos atrás. 10 de junho foi um dos poucos sobreviventes ao corte de feriados de 2013, que durará cinco anos. O objetivo é gerar mais renda em quatro dias a mais do ano. Grande luta sindical para serem pagos os dias a mais de trabalho, claro, com poucas conquistas. Portugal, definitivamente, é um mau patrão. Isso é a crise. O Euro está aí para provar isso. É a crise no cotidiano da população. E isso turista não vê.

O dia de hoje foi eleito no Estado Novo (vulgo, ditadura salazarista) para homenagear o nacionalismo. Forjou-se, então, o dia da morte de Camões como referência para a data, justificando o nome: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Tudo bem, toda a sociedade precisa de marcos fundacionais e, ao longo do tempo, governos ditatoriais demonstraram imensa habilidade em criar mitos. A situação crítica está no final do nome: Dia das Comunidades Portuguesas. Até 1974, 10 de junho era o Dia da Raça. A raça superior que difundiu a língua portuguesa pelo mundo a fora. A lusofonia a serviço de uma língua comum, hegemônica, consensual. Qualquer linguista pode acabar com este purismo fantasioso em menos de dois minutos de argumentação.

A Europa não é tão simples como uma visita de poucos dias pode dar a entender. Ela não é plana como gostaria um guia de viagens. O olhar colonialista se inverte e se amplia ao encontrar adeptos que propagam a síndrome do quintal (europeu) ao lado ser mais verde e seguro, rebaixando o que temos em casa. Este amor todo não é recíproco.

Só quem espera meses por um feriado sabe como é.