pra chegar à Pasárgada é preciso uma única mala

para meu Avô

A seleção natural não se aplica aos nossos apegos emocionais. A prova disso é o quanto somos capazes de encontrar significado para os objetos com que convivemos.

Quando há um limite inegociável, nossa ânsia impõe-se para fazer com que as coisas caibam em um único lugar. No caso de uma mala, são míseros 33 kg – semelhante peso que pode estar acumulado e distribuído entre culotes, braços, coxas e barriga de uma pessoa sedentária qualquer.

Colocar as meias dentro dos sapatos, enrolar camisetas ou colocá-las com os braços abertos, fazer caber em potinhos de 100 ml líquidos essenciais são os tópicos básicos. Há vários outros que, no entanto, não estão disponíveis em tutoriais no YouTube.

Pros amantes do papel, reduzir é uma prova de fogo. Você os ama e eles são como uma parte do seu corpo, mas a verdade é que livros pesam pra caramba. Têm aqueles gostosos de reler, outros dois com valor sentimental, aqueles quatro fundamentais pra sua pesquisa, outros dois que você comprou por impulso, além de uns três que você trouxe pensando que teria tempo pra finalmente começá-los – mas a verdade é que você só mudou de lugar: infelizmente, você segue não conseguindo ler tudo o que gostaria.

Há aquela roupa que você não usava quase nunca e nos últimos tempos nem sentiu sua falta. Desculpas pras benditas ocasiões especiais que achamos que existem, mas nunca nos convencem quando chegam. A estas somaram-se outras peças (que também escolhemos pelo mesmo motivo) e agora elas já não estão sozinhas: demonstram uma porção importante da nossa capacidade de procrastinar. O destino está fora da sua prioridade de embarque.

É um desapego doloroso isso de viver. Achamos que algo acontece quando mudamos de casa, de Estado, de País. Achamos que lá, na nossa Pasárgada, iremos exercer nossa dupla personalidade, praticar esportes que jamais pensaríamos, ser o que no fundo sempre quisemos, mas que não tivemos coragem para ser.

Pro balanço final, é preciso ignorar e simplesmente desistir de algumas partes importantes pra conseguir carregar as escolhas todas sozinha, com as próprias forças. Isso porque, entre tudo o que você tem, ali está o que você elegeu como essencial para viver. Até poderia caber mais uma foto impressa no meio de algumas páginas, talvez um tricô feito com carinho que não coube, ou um sapato que deveria estar aqui, mas que ficaram. No fim, sou apenas eu com o apego dos objetos que acho que me ligam a pessoas/lugares/lembranças.

No entanto, o essencial não pesa. Sem sombra de dúvidas, confundimos o que é necessário com o que precisamos pra meramente existirmos.

Ao juntar tudo o que é importante, você constata que sua vida não se reduz a esta mala. Isso é apenas o suficiente para um breve embarcar. Sem sombra de dúvidas o que é importante pra você não cabe ali. Não há bagagem capaz de guardar em um mesmo lugar o que lhe causa amor. E isso não se descarta e não há quem precise sofrer dilemas quando já não vivemos mais para gerenciar essas nossas tolices. Ninguém precisa guardar em caixas, vender pela internet ou levar para doação. Esta leveza sequer causa problemas no dia do nosso check-out. Talvez pese, no máximo, aquelas sutis 21 gramas.

Anúncios